10 de novembro de 2016

desabafo

sei lá, de repente sinto que tenho tanto pra dizer ao mesmo tempo que sei que o que tenho pra dizer já foi dito por tantos... entro numa livraria e me espanto, sempre, de medo e deslumbre: são tantos pensamentos unidos, ali, tantos universos pulsando num só lugar, a história da humanidade, a bomba atômica, misticismo, religiões, tudo à mãos: os poetas marginais, as prostitutas, os malditos, as árvores, a baleia, a seca, o medo, a praga, o câncer, as prisões, o holocausto judeu, o infinito... eu não sei se posso superar isso, não quero, na verdade, não sei, me dá vontade, vontade de gritar a voz que me queima o peito, azia de palavra, sabe, mal-estar do não-dito, que entope minha garganta, entala como comida faminta e apressada sem líquido pra empurrar. o que me empurra? qual o impulso da minha vida? a minha fonte, minha água, meu mel, não sei. gosto de tanto e condeno tanto, também. julgo e abraço na mesma intensidade. deduzo muito, confio demais na minha intuição, critico demais, eu sei que isso é chato, sei que sou chata, às vezes posso ser relevável, nada de tão extraordinário, não, apesar do drama. ainda sei muito pouco, e tenho muita pressa. meu pensamento não para, e eu sei que preciso de silêncio, eu preciso sair, não, eu preciso me concluir aqui, pagar contas ter um lugar um nome uma identidade renome buscar um emprego estabilidade provar pra terceiros que me superei mesmo que não, não, não, preciso sair, viajar, de bike, do méxico à argentina, explorar o mundo, viver em lisboa, ouvir mais discos, ler mais, pintar, fotografar, não preciso me encaixar, é, é isso, não preciso me encaixar, mas por que pesa tanto não-saber, fugir do óbvio, não ser zona de conforto? são tantas vozes, tantas ânsias, tantas desejos... não sei como administrar isso, é muito, pequena a vida, o que escolher? como selecionar o melhor sem correr o risco de não ser o melhor? é esse o preço que se paga por querer ser tanto e não ser nada? sobrecarrega. pesa. querer demais. e quero demais, mas eu não sonho mais, não, já passou, eu imagino mundos, fantasio, mas o alimento do sonho é a ilusão da esperança e ela já foi, já era, é parte do que fui. não tenho mais esperança. preciso ser menos lúcida pra poder continuar? louco demais ser lúcida demais e sensível demais? é necessário fechar os olhos, fingir que não vejo, que vai melhorar, que haverá reforma?, mentira, não vai, é tanta mentira, faz parte do sistema, não há nada de inédito além da tecnologia que avança, o resto é reprodução, e meu consolo é a arte. deixa eu te falar: folheava agora o livro da bethânia, caderno de poesias, e comecei a chorar. eu chorei porque tenho saudades, porque aquilo era lindo demais e me tocou de maneira que nem sei. eu nem li tudo e já me sinto outra. tem mais cores. uma explosão. a verdade é que nem a verdade conseguiu me roubar a capacidade de sentir. eu sinto muito. me espanto, me embriago, amor que me dá. é um abraço que acolhe e recolhe, a arte. o espelho, o reflexo, o não-dito. um tremor, uma sede, uma ânsia de saber mais. assaltar uma livraria, viver nômade e não parar, nunca, de saber mais. tenho tão boas lembranças no colo e, às vezes, sem querer, o cotidiano fazer poesias tão lindas, que nem sempre quero ver, estou amarga, mas ela me consome e me consola. nessas horas entendo que apesar de tudo vale a pena. viver é bom. que contradição!...

o agora que (não) cala

ei,
deixa eu te falar:
não tenha medo
não mordo, não
eu vou te abraçar
sempre
vou te abraçar
entende
que te...
bom,
você já sabe
não preciso repetir
não quero
fazer poema
de amor política
cotidiano
fazer sentido
não quero
julgamentos
muros prisão
não quero isso, não
o que quero
é dizer que vou
sempre vou
te abraçar