31 de março de 2016

a janela do mundo

Estar num ônibus, olhando o mundo correndo pela janela, me dá uma inspiração descontrolada. Sou tomada por uma estranha e curiosa nostalgia ao ver o movimento das ruas e das pessoas que as protagonizam: quem são, de onde vêm, o que fazem ali, que dores têm, o que mais gostam de fazer, do que mais acham graça? Sinto, nesse momento, um inexplicável e sincero amor por ele, por ela, por eles que eu nem sei quem são, mas que fazem parte, junto comigo, desse bonito e trágico espetáculo que é a vida. Agora, consigo sentir a existência em sua máxima completude. Como se fôssemos todos uma coisa só. Como se tudo estivesse conectado.

A janela de um ônibus é meu portal poético para o mundo. Através dela, o que vejo não é só o mundo em si, mas também o meu mundo interior, projetado nesse movimento colorido e voraz que me faz viajar por tantos labirintos, tantas memórias... por tantos sonhos, tantas vontades, tantas infâncias.

Vejo um homem corajoso pedalando nesse trânsito agressivo; uma mulher que corre na calçada estreita, com determinação, e suando por todos nós; pessoas esperando seus respectivos ônibus para chegarem em casa e, finalmente, se estirarem no sofá de frente pra tevê depois de um longo dia de trabalho; um grupo de amigas conversando na calçada, e sorriem, gargalhando gostoso; motos barulhentas e violentas cruzando o sinal vermelho e, entre elas, mais quatros audaciosas bicicletas; um cachorro e seu dono; um bar cheio de mesas vazias; tudo acontece e ao mesmo tempo vai ficando pra trás, enquanto o coletivo se apressa pra não perder a hora. Um crepúsculo tímido, se mostrando entre as brechas das nuvens carregadas, dá à cidade molhada um sentimento de caótica monotonia.

Sinal vermelho. Respiro fundo o ar poluído, olho pro lado: um carro branco, uma mulher fumando, dirigindo e falando no celular, um supermercado à frente; muita publicidade descartável; uma viatura em alta velocidade; o sinal abre, um homem ronca no banco de trás, sinto inveja e alegria por ele conseguir dormir e se desligar desse caos; e o ônibus segue, assim como meus olhos famintos. 

Engarrafamento encima de um viaduto. De cima, vejo vultos de luz e uma infinidade de carros buzinando sem parar. Já quase escurece... Um minuto para andar cinco metros. Muita fios, antenas e poucas árvores. Uma poça enorme na av. Raul Barbosa. Finalmente os veículos se dispersam, o ônibus acelera pra não atrasar; no caminho do aeroporto, um avião subindo: gente chegando e partindo o tempo todo.

Coisas sem nexo passam pela minha cabeça: o sonho da noite passada, elefantes voadores, lembro que amanhã acordo às seis, ao lado uma van amarela com o número 1058 na traseira me faz pensar em jogar na loteria, rapidamente esqueço e penso na colcha amarela do quarto dos fundos da casa do meu namorado, e a última vez que fizemos amor. Suspiro de saudade. Quem controla esses pensamentos malucos? 

Da janela, o caos só aumenta. Estudantes atravessam a faixa de pedestre, um idoso caminha, cantando e sorrindo, eu levanto, dou sinal e desço, sentindo como se todos os corações da cidade batessem dentro de mim.

19 de março de 2016

de volta à casa!

Esse cantinho tem quase oito anos. O-i-t-o-a-n-o-s! Exatamente a idade do meu priminho Arthur, que agora descobre a delícia do saber e pergunta o porquê de tudo. É assustador se dar conta disso. Tudo começou na escola, numa busca adolescente pela compreensão do mundo e das pessoas. Ainda não compreendo nada. Embora muito dentro de mim tenha mudado, continuo a mesma: intensa e infantil, tentando despistar a dor com um sorriso, mesmo que dentro de mim ela faça morada.

Fui observando, na releitura dos antigos textos, que o tempo arrastou consigo tudo que me era: amores, pessoas, saudades, medos, preocupações, indagações. O que hoje me compõe são outros amores, outras pessoas, outras saudades, outros medos, outras preocupações, outras indagações. Sim, algumas coisas se mantiveram, aquelas de raízes profundas, que tempestade alguma esmorece, mas poucas, muito poucas. Estranho perceber que, por mais que mudemos, os ciclos são os mesmos, os contextos é que se modificam.

Pensei em fazer outro blog, com um novo nome, como um pontapé para essa fase transitória na qual me encontro, mas já tomei essa iniciativa tantas vezes e nenhuma desengatou, o que apenas confirma uma certeza antiga: aqui é a minha casa, o meu lugar preferido, onde me sinto à vontade para ser. Por mais que carregue o peso de tantos passados, são esses passados que me inventaram, que me permitiram chegar aqui.

Tenho tanto a expressar que sinto, às vezes, profunda limitação. Como se o papel em branco, infinito de possibilidades, me emudecesse. O tempo foi fazendo algo curioso comigo: imperceptivelmente, aos pouquinhos como um colibri roubando o néctar de uma flor, aderi ao hábito do silêncio profundo. Comecei a achar tão lindo isso de calar-se, de ouvir tudo que grita aqui dentro, que fui perdendo o jeito... não sabendo mais como escrever, como começar a dizer, como rabiscar meus sentimentos, como torná-los histórias, como enfeitá-los de fantasia.

Na verdade, escrever nunca foi fácil pra mim. A primeira linha é o meu maior desafio, passar dela é tão desafiador quanto nadar contra corrente: quanto mais força eu ponho, mais me forço a permanecer no mesmo lugar. Preciso aprender a sobrenadar, me deixar ir enquanto olho pros traços do céu, e me inspiro: nuvens se derramando como aquarela entre as cores que o sol pinta. Meus escritos são, quase sempre, reflexos da minha bagunça interior, e é muito difícil afrontar a si mesmo, olhar-se como outro e enxergar tudo que é sujo, tudo que fere, tudo que dói, e ainda assim ter forças para se pôr no colo e coser os buracos. Ou, então, retalhar-se mais. Cavar-se em busca de sabe-se-lá-o-quê.

Depois de tanta relutância, prefiro acreditar que não existe um manual pra ditar o pensar e o sentir. Basta perder o medo de errar; se não ficar bom, dá pra se reinventar na próxima linha. A perfeição nunca é fiel, ainda mais quando o assunto é ser. Por isso, volto. Para me refazer a cada texto, para me permitir ser tudo e todas que sou. E cá estou: com coração limpinho e cheirando a alecrim, ao mesmo tempo cheio e desesperado para exaurir-se.