5 de dezembro de 2016

protex cream

sempre quis escrever sobre os cheiros, mas nunca soube como expressar a força desse sentido que tanto me fascina. apenas sinto. explosivamente. hoje tava buscando um sabonete novo, e inalando um por um, vivi um desses momentos que fazem a vida escorrer. transbordar. protex cream. o cheiro desse sabonete me levou a dias tão especiais da minha vida. principalmente a uma viagem que fiz com meu pai. esse era o cheiro que a gente usava. o sabonete que, do banheiro, espalhava-se por toda a casa, pelo carro, pelas ruas da Praia das Fontes. grudava na roupa, na pele e nos pelos (meu pai gostava tanto que também usava como shampoo). tantos abraços com o cheiro de protex cream, tantas músicas que cantamos juntos. tocava Leonard Cohen e o cheiro de protex cream. o misto quente no café da manhã. suco de laranja de frente pro mar. são tantas lembranças que se guardaram nesse cheiro... forte demais. sai do mercado e o cheiro não me saiu. materializou-se, outra vez. na ponta dos dedos, na minha saliva e na memória. e, chorando, caminhei até em casa também sorrindo.

a baleia solitária

descobri ontem, lendo um livro de poesia, a existência da baleia dos 52 hertz. "a baleia mais solitária do mundo", como foi nomeada. isso porque as outras baleias cantam numa frequência de 10 a 25 hertz, portanto, não escutam o seu chamado. ela vive sozinha; atravessando oceanos sem companhia, ressoando tão alto como um sinal de urgência por compartilhar a vida. todos os anos, cruza o pacífico de agosto a dezembro, e viaja até a costa da califórnia, cantando incansavelmente. há várias gravações do seu canto desesperado, detectado por estudiosos que, agora, vão lançar um documentário a respeito dessa baleia que é um mistério para nós, humanos, que queremos saber de tudo. dizem que ela é surda. dizem também que é um híbrido. dizem tanta coisa, mas não dá pra saber com certeza de nada porque ela é um bicho tão... imenso. e é a única de sua espécie no mundo. ouvir o canto da baleia mexe lá no fundo do meu íntimo. a ideia de solidão. a vontade de ser escutado, a tentativa de ser escutado, e nada... qual o sentido de viver sem compartilhar? me pergunto se estamos como a baleia, cantando um grito desesperado que ninguém escuta, e ainda assim resistimos. cada canto é tão particular; e a natureza, tão inexplicável...