11 de setembro de 2016

enquanto dorme

nesse instante
em que um segundo é maior que o Infinito
e as tuas pálpebras tremem sutís,
me pergunto o que te passa por dentro:
que sonho sonha, que cores vê...

nesse momento de tanta pureza e humanidade
em que teus lábios arriscam um riso de canto,
delicado e infantil,
te percebo tão desarmado, meu menino
que sinto uma vontade sincera e maternal
de te pôr no colo
e com meus braços gigantes
proteger teu coração sonhador
de todo o mal do mundo.

a tua respiração funda,
o movimento involuntário dos teus músculos,
as gotinhas de suor espalhadas pelo teu corpo nu
que brilham nesse quarto escuro,
me despertam, agora
um amor claro e profundo:
esse amor que tanto esperou
mas que, mesmo demorado,
chegou transbordando
só pra te dar.

nesse instante
posso enxergar tua alma flutuante e musical
dançando pelo ar,
e devo confessar:
já não sei mais quem vive um sonho,
se você enquanto dorme
 ou se eu, que te observo.

31 de março de 2016

a janela do mundo

Estar num ônibus, olhando o mundo correndo pela janela, me dá uma inspiração descontrolada. Sou tomada por uma estranha e curiosa nostalgia ao ver o movimento das ruas e das pessoas que as protagonizam: quem são, de onde vêm, o que fazem ali, que dores têm, o que mais gostam de fazer, do que mais acham graça? Sinto, nesse momento, um inexplicável e sincero amor por ele, por ela, por eles que eu nem sei quem são, mas que fazem parte, junto comigo, desse bonito e trágico espetáculo que é a vida. Agora, consigo sentir a existência em sua máxima completude. Como se fôssemos todos uma coisa só. Como se tudo estivesse conectado.

A janela de um ônibus é meu portal poético para o mundo. Através dela, o que vejo não é só o mundo em si, mas também o meu mundo interior, projetado nesse movimento colorido e voraz que me faz viajar por tantos labirintos, tantas memórias... por tantos sonhos, tantas vontades, tantas infâncias.

Vejo um homem corajoso pedalando nesse trânsito agressivo; uma mulher que corre na calçada estreita, com determinação, e suando por todos nós; pessoas esperando seus respectivos ônibus para chegarem em casa e, finalmente, se estirarem no sofá de frente pra tevê depois de um longo dia de trabalho; um grupo de amigas conversando na calçada, e sorriem, gargalhando gostoso; motos barulhentas e violentas cruzando o sinal vermelho e, entre elas, mais quatros audaciosas bicicletas; um cachorro e seu dono; um bar cheio de mesas vazias; tudo acontece e ao mesmo tempo vai ficando pra trás, enquanto o coletivo se apressa pra não perder a hora. Um crepúsculo tímido, se mostrando entre as brechas das nuvens carregadas, dá à cidade molhada um sentimento de caótica monotonia.

Sinal vermelho. Respiro fundo o ar poluído, olho pro lado: um carro branco, uma mulher fumando, dirigindo e falando no celular, um supermercado à frente; muita publicidade descartável; uma viatura em alta velocidade; o sinal abre, um homem ronca no banco de trás, sinto inveja e alegria por ele conseguir dormir e se desligar desse caos; e o ônibus segue, assim como meus olhos famintos. 

Engarrafamento encima de um viaduto. De cima, vejo vultos de luz e uma infinidade de carros buzinando sem parar. Já quase escurece... Um minuto para andar cinco metros. Muita fios, antenas e poucas árvores. Uma poça enorme na av. Raul Barbosa. Finalmente os veículos se dispersam, o ônibus acelera pra não atrasar; no caminho do aeroporto, um avião subindo: gente chegando e partindo o tempo todo.

Coisas sem nexo passam pela minha cabeça: o sonho da noite passada, elefantes voadores, lembro que amanhã acordo às seis, ao lado uma van amarela com o número 1058 na traseira me faz pensar em jogar na loteria, rapidamente esqueço e penso na colcha amarela do quarto dos fundos da casa do meu namorado, e a última vez que fizemos amor. Suspiro de saudade. Quem controla esses pensamentos malucos? 

Da janela, o caos só aumenta. Estudantes atravessam a faixa de pedestre, um idoso caminha, cantando e sorrindo, eu levanto, dou sinal e desço, sentindo como se todos os corações da cidade batessem dentro de mim.